segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O palhaço, o diretor e o porteiro

E é claro que ele tinha esperanças. Afinal, a esperança é a última que morre, logo depois do cretino que ainda tinha esperança, mesmo quando qualquer observador externo pode julgar claramente que esta não é uma situação para se ter esperança.

Ele acordou atrasado. Tinha uma reunião às 10hs da manhã, e já era 8h50. Contando com uma hora de trânsito e mais sua paranoia, ele estava atrasado. Por isso, fez a barba no banho corrido e gelado que tomou, se vestiu o mais rápido possível e saiu correndo. Não que fosse uma reunião realmente importante, ele chegou a pensar, devaneando sobre a possibilidade de ligar para lá, inventando alguma desculpa, como a de que havia caído um meteoro em seu carro; poderia ser uma boa desculpa, afinal eles ouviriam o barulho da rua e do trânsito e ele poderia falar algo para ninguém para que eles ouvissem como se estivesse reclamando com o CET: "Putza. Isso acontece uma vez em cem anos. Tinha que ser bem agora que eu tenho uma reunião importante". Pensou que talvez até presidentes pudessem usar essa desculpa. E pensou então em registrar essa desculpa no cartório, pois se até presidentes a usassem, ele ficaria rico. Mas de tanto pensar, quase ultrapassou o sinal vermelho, justamente quando um CET estava na esquina ansioso para aplicar uma multa naqueles que inventavam desculpas para não ir trabalhar e ultrapassassem o sinal vemelho. Esqueceu sobre o assunto da propriedade intelectual e dos direitos de uso, e se concentrou em ligar e usar essa desculpa, que de tão mentirosa, teriam que acreditar que era verdade; afinal não é sempre que um meteoro cai no carro de alguém. Poderia ir para casa e aproveitar o dia para não fazer nada. Mas depois pensou que remarcariam a reunião para outro dia, então decidiu ir, sem usar sua desculpa genial.

Chegando na empresa, lembrou de fazer sexo ao ver a recepcionista.
- Bom dia.

Era 9h55. Chegou um pouco adiantado até. Passaram-se alguns minutos e eles vieram.
- Bom dia. Aceita uma água ou café? - disseram eles, enquanto ele esperava por sexo
- Não, não. Muito obrigado. Estou drogado.
- Então vamos entrar.

Na realidade, ele não estava drogado. Aquela era uma desculpa muito utilizada pelos presidentes de diversas nações quando não queriam tomar um café com gosto de merda. E realmente, o café da empresa era conhecido pelo gosto de merda, afinal era feito de merda. "100% reciclado" era o texto escrito em diversos cartazes espalhados pelos corredores. A empresa era uma multinacional, e em uma ação de responsabilidade corporativa, a sede mandava toda a merda feita pelos colaboradores que moravam no primeiro mundo (país desenvolvido) para as empresas sediadas em países colonizados.

- Nós queremos matar o diretor - disse a mulher de terno.
- Sim. Isso mesmo - confirmou o imbecil ao lado da mulher de terno - já passou da hora dele ir dessa pra uma melhor.

Acertados os detalhes, especificações do projeto, orçamento e estimativa, numa reunião de 3 horas intermináveis, ele pensou em sexo novamente. Não fazia muito tempo desde sua última trepada, mas mesmo assim, esse tipo de coisa é algo que se pensa ao se fazer qualquer tipo de coisa. Mesmo enquanto se está fazendo sexo.

Tomou um gole de desodorante e ficou atrás da recepcionista, escondido, aguardando o diretor chegar. Na reunião, fora informado de que o diretor tinha uma reunião de manha e que chegaria lá pelas 12hs. Mesmo não estando totalmente ereto, ele pensou em sexo. Afinal, estava atrás da recepcionista e esse tipo de coisa é algo que se pensa ao se fazer qualquer tipo de coisa.

Estava vestido de palhaço, pois era essa sua profissão oficial. Pensou que talvez, se não estivesse com aquela roupa colorida e espalhafatosa, a recepcionista quisesse trepar com ele ("Filhos da puta." - ele pensou - "Tinham me falado que o colorido era o novo preto"). Por isso, tirou a roupa, ficando apenas de cueca. Mesmo assim, a recepcionista não olhou para ele e continou a jogar algum jogo estúpido de cartas no computador e esboçando um risinho de vez em quando, ao ler algo que alguém havia mandado pra ela no msn. Se sentiu estúpido por aquela situação estúpida, e então, colocou sua calça e suspensórios. Enquanto parecia um stripper de boate gay, pensava em como iria realizar a façanha pela qual tinha sido contratado. Uma bela machadada poderia resolver o seu problema, mas uma machadada feia poderia fazer com que a recepcionista não quisesse trepar com ele. Começou a sentir o suor pelas costas, enquanto pensava que seu machado não era bonito o suficiente para dar uma bela machadada na cabeça do diretor. Resolveu então que o mataria afogado.

- É isso! - gritou enquanto ia ao banheiro.

Como palhaço, ele sempre tinha um balde em sua maleta. Afinal, quando você é um palhaço, nunca sabe quando vai precisar esconder o seu rosto dentro do balde para cheirar cocaína para aguentar aquelas mulheres chatas e velhas que pediam que fizesse truques após truques, mesmo ele não sendo um mágico. Encheu o balde de água sanitária (a qual era composta por urina dos colaboradores da sede da multinacional). Tomou mais um pouco de desodorante e voltou a ficar atrás da recepcionista, aguardando a chegada do diretor. Era 8h30 da manhã já.

O diretor chegou de terno com o gerente comercial. Ao ver o palhaço, o diretor ficou surpreso e empurrou o gerente comercial para cima do primeiro, fazendo com que o balde de água fosse derrubado no pobre coitado que só queria realizar algumas vendas naquele dia e alcançar sua meta. O gerente comercial gritava:
- Aaaaaaaargh! Puta que la merda! Meus olhos! Não, as abelhas!

O diretor aproveitou a distração que tinha criado como uma espécie de mágico, virou-se, deu um chute na porta de incêndio e saiu correndo como um puddle de madame ao ver um pitbull; estava consciente da situação: já havia lido em diversas revistas de executivos sobre palhaços mercenários, que devido à crise imobiliária dos EUA, estavam começando a matar pessoas de alto nível dentro das empresas, à mando de pessoas de alto nível das empresas concorrentes. O palhaço foi atrás. Seu coração batia forte e ele podia ouvir os passos apressados do diretor. Ouviu a porta do térreo batendo, e logo em seguida a alcançou. Abriu a porta com cuidado e passou pela roleta cumprimentando o porteiro educadamente, pois sabia que membros da classe dominada podiam se revoltar à qualquer hora e iniciar uma guerra entre classes. Havia lido Marx na época da faculdade, e embora acreditasse que todo o consumismo, individualismo e o hedonismo predominante na sociedade pós-moderna fosse prejudicial ao potencial humano, tinha medo de que algum mendigo fosse morar em seu apartamento, caso o comunismo entrasse em vigor. Em diversas eleições, havia ouvido essa retórica, de que haveria distribuição dos meios de reprodução, por isso, tinha medo de que algum dia descobrissem que palhaços podiam engravidar e com isso, ele tivesse que ser forçado a cometer atos sexuais involuntários para que não fosse considerado um traidor do Estado. Afinal, seu estado era masculino e não admitiria que comunistas barbudos invadissem seu país, duvidassem da sua sexualidade e destruíssem tudo aquilo pelo que os pais da nação haviam lutado. Não concordava com as guerras realizadas em nome do petróleo, mas o comunismo não era aceitável, esse tipo de coisa envolvia sexo e esse tipo de coisa é algo que se pensa ao se fazer qualquer tipo de coisa.

Porém, o porteiro não aceitou seu cumprimento educado, sacou um revolver e apontou para o palhaço.
- Parado aê meliante - gritou o porteiro. O porteiro havia assistido Tropa de Elite 2 no dia anterior.
- Calmaê, parceiro. Você não sabe o que está acontecendo aqui. Eu já li Marx. - se defendeu o palhaço.
- Atira! Atira no filho da puta! Ele tentou me matar! - gritava mais forte o diretor.
- Mas eu já li Marx - dizia o palhaço com esperança.

O porteiro deu dois tiros e o palhaço morreu pensando em sexo, afinal, esse tipo de coisa é algo que se pensa ao se fazer qualquer tipo de coisa.



Um comentário:

  1. hahahaha... eu curto esse seu linguajar 'escrachado' (indivíduo identificado criminalmente cuja fotografia fica exposta na parede) regado de ironia...

    Lembra-me Fernando Pessoa sob o heterônimo de Aberto Caeiro:

    'Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?'

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